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Jornal Folha Regional

Proprietário do OnlyFans, Leonid Radvinsky, morre de câncer aos 43 anos

Proprietário do OnlyFans, Leonid Radvinsky, morre de câncer aos 43 anos – Foto: reprodução

O empresário Leonid Radvinsky, dono do OnlyFans, morreu nesta segunda-feira (23), aos 43 anos. A informação foi confirmada pela empresa à Bloomberg. O bilionário ucraniano-americano enfrentava tratamento contra câncer.

“Estamos profundamente tristes em anunciar a morte de Leo Radvinsky. Leo faleceu em paz após uma longa batalha contra o câncer”, informou a empresa em comunicado. “A família pediu privacidade neste momento difícil.”

Quem foi Leonid Radvinsky

Radvinsky nasceu em 1982 em Odessa, cidade da Ucrânia que na época era parte da União Soviética. Ele se mudou com a família para os EUA quando criança e, atualmente, morava na Flórida. O empresário era discreto nas redes sociais e evitava entrevistas.

A revista Forbes registrou o patrimônio de Radvinsky em 4,7 bilhões de dólares no ranking de bilionários de 2025. Ele ocupava a 870ª posição entre as pessoas mais ricas do mundo. O empresário também era dono da Fenix International Ltd., empresa-mãe do OnlyFans.

Radvinsky começou a trajetória empresarial quando ainda era estudante de economia da Northwestern University, nos Estados Unidos. No fim dos anos 1990, fundou uma empresa chamada Cybertania. Segundo a Forbes, ele administrava sites que disponibilizavam senhas hackeadas naquele período.

O ucraniano comprou participação majoritária no OnlyFans em 2018. A plataforma foi fundada em 2016 e pertencia à família Stokely, do Reino Unido, permitindo que criadores de conteúdo cobrem diretamente por suas publicações.

A plataforma ganhou fama, no entanto, ao hospedar material considerado inapropriado na maioria das redes sociais, com crescimento expressivo durante a pandemia.

De acordo com a Bloomberg, Radvinsky estava em negociações para vender uma participação da empresa. As conversas ainda estavam em estágio inicial.

Morre menina com câncer que teve R$ 2,5 milhões destinados ao tratamento desviados por empresários

Morre menina com câncer que teve R$ 2,5 milhões destinados ao tratamento desviados por empresários — Foto: Arquivo RPC

Aos 12 anos, Yasmin Amorim morreu nesta sexta-feira (6), em Cascavel, no oeste do Paraná, após uma longa luta contra um câncer agressivo, o neuroblastoma. A história da menina comoveu o país não apenas pela gravidade da doença, mas também porque R$ 2,5 milhões destinados ao tratamento foram desviados por empresários, atraso que marcou de forma decisiva os últimos anos de sua batalha pela vida.

A morte foi confirmada pela família. Yasmin estava internada no Hospital do Câncer de Cascavel, onde o estado de saúde se agravou durante a madrugada. Nas redes sociais, a mãe, Daniele Aparecida Campos, chegou a informar que uma corrente de oração seria realizada em frente à unidade hospitalar, mas a menina não resistiu antes do horário marcado.

Diagnosticada em 2018, quando tinha apenas cinco anos, Yasmin enfrentou um tumor no pescoço e no tórax. Após o primeiro tratamento com quimioterapia, entrou em remissão. Em 2020, a doença voltou, exigindo um novo ciclo de quimioterapia associado a um transplante de medula óssea, que novamente levou à remissão e permitiu que a criança retomasse uma rotina próxima do normal.

Mesmo após cirurgias, sessões de fisioterapia e procedimentos complexos, o câncer retornou de forma agressiva. Diante do avanço da doença, em 2024, a família recorreu à Justiça para garantir o custeio de um tratamento com medicamentos importados, avaliados em R$ 2,5 milhões. A Justiça determinou que o Governo do Paraná arcasse com a compra do medicamento Danyelza.

Após a apresentação de três orçamentos, a empresa Blowout Distribuidora, Importação e Exportação Eireli foi escolhida para fornecer os remédios. No entanto, a empresa subcontratou outra importadora, que não entregou a medicação conforme o contratado. O hospital recebeu apenas uma ampola do Danyelza, quando o tratamento exigia seis. Outro medicamento essencial, o Leukine, também chegou de forma incompleta: das 60 caixas previstas, apenas 10 foram entregues, além de versões genéricas.

As irregularidades levaram a Polícia Civil a pedir o bloqueio das contas das empresas envolvidas. As investigações apontaram que os valores estavam praticamente esgotados e que os responsáveis já tinham antecedentes por estelionato.

Enquanto a Justiça tentava recuperar o dinheiro desviado, o Governo do Paraná autorizou uma nova compra emergencial da medicação. Yasmin conseguiu concluir a primeira fase do tratamento no fim de 2024, mas sem resposta significativa. Em 2025, iniciou a segunda fase do protocolo, que não conseguiu finalizar, permitindo o avanço da doença.

Os empresários Lisandro Henrique Hermes e Polion Gomes Reinaux, responsáveis pela compra da medicação, foram condenados por estelionato. As penas somam quatro anos, nove meses e cinco dias de prisão, em regime inicialmente fechado. Eles estão presos desde agosto do ano passado. Um terceiro denunciado foi absolvido.

Na sentença, a juíza destacou que os réus utilizaram a reputação de suas empresas para conquistar a confiança das vítimas e se aproveitaram da estrutura pública para obter vantagem indevida. A magistrada ressaltou que as consequências do crime foram graves, já que o atraso no tratamento fez com que Yasmin precisasse receber morfina a cada hora para suportar as dores enquanto aguardava os medicamentos.

O assistente de acusação, Allan Lincoln, afirmou que a condenação é relevante, mas pode ser ampliada. “Apesar de a sentença ser importante ao condenar os réus por estelionato, entendemos que ela ainda pode ser reformada para incluir crimes mais graves, diante da dimensão do caso”, disse.

A defesa de Lisandro Henrique Hermes informou que vai recorrer da decisão e nega a participação dele em qualquer ação criminosa. A defesa de Polion Gomes Reinaux não se manifestou até a última atualização.

Em meio à dor, a mãe de Yasmin resume o sentimento deixado por uma espera que nunca deveria ter acontecido.

“Sinto alívio, mas também revolta. A gente revive toda a angústia daquela espera”, desabafou Daniele.

A história de Yasmin Amorim escancara não apenas a luta de uma criança contra o câncer, mas também as consequências humanas de crimes cometidos em meio a tratamentos que não admitem atraso.

VÍDEO | Com apenas 3 anos, menina com câncer raro ajoelha na igreja e pede: ‘Jesus, me cura

Com as mãos pequenas unidas e ajoelhada diante do altar, Valentyna, de apenas 3 anos, fez um pedido simples e devastador: “Jesus, me cura”. A cena, registrada pela própria mãe, surpreendeu a família e tocou profundamente quem assistiu. A menina enfrenta um câncer raro e agressivo e, mesmo tão nova, demonstra uma fé que comove.

O vídeo foi gravado em uma igreja de Gaspar, no Vale do Itajaí (SC). Valentyna aparece com um lenço vermelho na cabeça, cobrindo a queda dos cabelos provocada pela quimioterapia. Ainda assim, mantém o sorriso no rosto e uma serenidade difícil de explicar diante de uma batalha tão dura para alguém da sua idade.

Diagnosticada com neuroblastoma maligno, um tipo raro de câncer infantil, a menina enfrenta cinco tumores e está em tratamento quimioterápico. A previsão é que o processo dure cerca de um ano e meio. Diante da gravidade do quadro, a família pede orações e boas energias para atravessar esse período tão delicado.

As imagens se espalharam rapidamente pelas redes sociais e despertaram uma onda de emoção em todo o país. Comentários se multiplicaram, muitos falando de lágrimas, arrepio e esperança — independentemente de crença religiosa. Porque, para quem assiste, não se trata de dogma, mas de fé, coragem e amor.

“Vamos reforçar esse pedido para Jesus. Dê cura a ela, Jesus”, escreveu uma seguidora do Só Notícia Boa.
“Jesus, cura ela, Senhor”, comentou outra.
“Vai curar, meu amor!”, disse mais uma.
“Está curada em nome de Jesus!”, declarou outra internauta.

O vídeo revela algo que palavras mal conseguem traduzir: a fé pura de uma criança que encara uma luta imensa, mas segue acreditando — e fazendo o Brasil inteiro acreditar junto.

VÍDEO | Menina de 7 anos com câncer realiza sonho de conhecer o mar, mas morre enquanto retornava da viagem

Após realizar o sonho de conhecer o mar, a pequena Júlia Soares Teixeira da Silva, de 7 anos, morreu na última segunda-feira (2), após uma piora repentina no quadro de saúde durante a viagem de volta para Curitiba. A menina lutava há cerca de três anos contra um carcinoma de adrenal, um tipo raro e agressivo de câncer, e estava em tratamento no Hospital Erastinho, referência em oncologia pediátrica.

A viagem ao litoral catarinense, simples para muitos, foi especial para Júlia e a família. Era um desejo antigo da criança, que enfrentava longos períodos de internação, cirurgias e tratamentos intensos. Na praia, entre mergulhos no mar e momentos ao lado dos pais, Júlia viveu dias de alegria e liberdade — lembranças que se tornaram eternas para a família.

No retorno para Curitiba, pela BR-101, na região de Joinville, no Norte de Santa Catarina, a menina começou a sentir fortes dores e mal-estar. Diante da gravidade da situação e do trânsito intenso na rodovia, o pai buscou ajuda junto à Polícia Rodoviária Federal (PRF), relatando a urgência do atendimento.

Equipes da PRF iniciaram uma escolta do veículo da família até o município de Garuva, na divisa entre Santa Catarina e o Paraná. No local, um helicóptero da corporação foi acionado para agilizar o socorro. Júlia foi transportada por via aérea, acompanhada da mãe, até o Aeroporto do Bacacheri, em Curitiba. O voo durou cerca de 20 minutos — um trajeto que, por terra, poderia ultrapassar duas horas devido aos congestionamentos.

No aeroporto, uma ambulância de suporte avançado aguardava para encaminhá-las diretamente ao Hospital Erastinho. Apesar da mobilização rápida e integrada entre PRF, SAMU e equipes médicas, Júlia não resistiu às complicações do quadro clínico.

A morte foi confirmada pela mãe, Taiane Silva, nas redes sociais, em mensagens de despedida que comoveram familiares, amigos e internautas. O pai também prestou homenagens, relembrando a coragem da filha e o amor vivido em cada momento.

Diagnosticada em 2023, Júlia enfrentou um tratamento longo e doloroso. Ao longo da luta, passou por diversas cirurgias — em uma delas, foram retirados seis tumores — além de ciclos intensos de quimioterapia. No fim do ano passado, após completar sete anos, iniciou um novo protocolo, que apresentou baixa resposta. Em 2026, a família foi orientada sobre a transição para cuidados paliativos, diante da ausência de alternativas curativas.

A PRF destacou que a ação teve como objetivo garantir o atendimento mais rápido possível diante da gravidade do caso. A história de Júlia gerou grande comoção e reforça a importância da atuação integrada dos serviços de emergência em situações críticas de saúde.

Mais do que uma despedida, a trajetória da menina deixa uma mensagem de coragem, amor e valorização dos pequenos momentos. O mar que Júlia tanto sonhava conhecer se transformou em símbolo de resistência e de uma vida vivida com intensidade, mesmo em meio à dor.

VÍDEO | Família de Salvador faz buzinaço para comemorar última quimioterapia de adolescente: ‘Vencemos’

Uma onda de emoção tomou conta das ruas de São Paulo no último fim de semana. Um buzinaço espontâneo marcou a última sessão de quimioterapia de Zac Saraiva, um adolescente de 16 anos, e transformou a Avenida Paulista em um verdadeiro corredor de esperança. A cena foi tão comovente que até um policial interrompeu o trajeto da viatura, parou no meio da via e fez questão de cumprimentar e beijar carinhosamente o jovem.

Com o corpo para fora do teto solar, Zac sorria enquanto o carro da família avançava lentamente. Ao redor, motoristas acenavam, buzinavam e celebravam. Em alguns semáforos, jovens se aproximavam apenas para abraçar o adolescente que venceu o câncer. Eram gestos simples, mas carregados de significado.

Durante o trajeto, desconhecidos baixavam os vidros para compartilhar palavras de incentivo. “Eu passei por isso”, dizia um. “Vai dar tudo certo”, afirmava outro. “Vocês são fortes”, repetiam vozes que se somavam ao som das buzinas.

“Buzinas, abraços, lágrimas, desconhecidos que pararam o caminho para celebrar uma vida. Pessoas que abriram os vidros para dizer ‘eu passei por isso’, ‘vai dar tudo certo’, ‘vocês são fortes’. Hoje, o amor foi mais alto que o barulho do trânsito e das buzinas, que foram muitas”, escreveu a mãe de Zac, Adriana Saraiva, ao compartilhar o vídeo do momento nas redes sociais.

Segundo ela, a emoção tomou conta da família. “Foi um dos dias mais emocionantes da minha vida. Porque ver meu filho vencer é algo que nenhuma palavra alcança — mas o coração entende”, relatou.

Adriana contou que, após a última quimioterapia, a família se transformou em uma caravana de celebração. Nos carros, mensagens simples, porém gigantes: “Minha última quimio, buzine”, “Vencemos”, “Acabou”.

“Hoje não foi só a última quimioterapia do Zac. Foi o dia em que a esperança saiu às ruas”, escreveu. Para ela, a resposta da cidade foi imediata e inesquecível. “A cidade respondeu.”

A comemoração marcou mais do que o fim de um tratamento: simbolizou uma vitória coletiva. “Hoje comemoramos. Hoje respiramos aliviados. E podemos dizer: vencemos mais esta etapa”, afirmou a mãe, ainda emocionada.

Ao final, Adriana deixou um pedido que ecoa além da história do filho:
“A esperança saiu às ruas por Zac, mas ela pertence a todos que já passaram — ou estão passando — por algo difícil. Que esse amor continue circulando. Que ninguém se sinta sozinho.”

Pesquisadora brasileira cria caneta que detecta câncer em 10 segundos

Demonstração de uso da caneta MasSpec em uma amostra de tecido humano — Foto: Vivian Abagiu/Universidade do Texas

Uma brasileira está por trás de uma das inovações médicas mais promissoras dos últimos anos. A química Lívia Schiavinato Eberlin, professora da Baylor College of Medicine, nos Estados Unidos, desenvolveu um dispositivo capaz de identificar se um tecido é saudável ou cancerígeno em apenas 10 segundos, já durante a cirurgia.

A tecnologia, batizada de MasSpec Pen, já é chamada de “caneta que detecta câncer”.

Agora, o Einstein Hospital Israelita, em São Paulo, conduz o primeiro estudo clínico fora dos Estados Unidos com o equipamento, em parceria com a Thermo Fisher Scientific, multinacional responsável pelo espectrômetro de massas que viabiliza a leitura molecular do tecido.

Como funciona a tecnologia

A MasSpec Pen é uma caneta conectada a um espectrômetro de massas –um equipamento capaz de identificar as moléculas que compõem uma substância e revelar sua “assinatura química”.

Em termos simples, ele pesa e compara as moléculas do material analisado, mostrando quais estão presentes e em que proporção. É a mesma tecnologia usada em investigações forenses, no controle de qualidade de alimentos e em exames antidoping –agora adaptada para uso médico.

Durante a cirurgia, o médico encosta a ponta da caneta sobre o tecido suspeito. O dispositivo libera uma microgota de água estéril, que permanece em contato com o tecido por alguns segundos. Essa gota extrai moléculas da superfície e é aspirada para o espectrômetro, que analisa sua composição química em tempo real.

O aparelho então identifica o padrão molecular do tecido –algo como uma impressão digital biológica — e mostra na tela se ele é saudável ou cancerígeno.

“É como fazer um café: a água extrai as moléculas da amostra sólida, mas não remove o tecido. A análise é instantânea e não causa nenhum dano”, explica Lívia Eberlin.

O contraste com o padrão atual

Em qualquer cirurgia oncológica, um dos maiores desafios é definir o limite exato do tumor –até onde o cirurgião deve cortar.

O objetivo é remover completamente o tecido doente, evitando deixar células cancerígenas para trás, mas sem retirar mais do que o necessário de tecido saudável, o que pode comprometer órgãos e funções do corpo.

Esse tecido, em termos simples, é o conjunto de células que forma uma parte do corpo –como um fragmento do pulmão, da tireóide, do fígado ou da mama.

Quando há um tumor, as células cancerígenas se infiltram nesses tecidos e podem invadir áreas vizinhas. Por isso, o médico precisa saber onde termina o câncer e onde começa o tecido saudável –a chamada margem de segurança cirúrgica.

Hoje, para responder a essa pergunta durante a cirurgia, os hospitais utilizam o chamado exame de congelação, considerado o padrão-ouro da patologia.

Nesse procedimento, o cirurgião remove um pequeno pedaço do tecido suspeito e o envia para o laboratório, onde o material é congelado, cortado em lâminas finas e analisado ao microscópio.

O processo pode levar de 20 minutos a 1h30, tempo em que o paciente permanece anestesiado, “aberto” e a equipe cirúrgica aguarda a resposta do patologista.

Se o exame indicar que ainda há células cancerígenas nas bordas do material retirado, o médico precisa voltar e remover uma área maior, prolongando a operação, o tempo de anestesia e o risco de complicações.

“Mesmo patologistas experientes podem ter dificuldade em fornecer uma resposta precisa sobre margem de segurança, porque o congelamento distorce a estrutura do tecido”, explica Lívia Eberlin.

“Com a caneta, o resultado vem em segundos, diretamente da sala de cirurgia, e o cirurgião sabe imediatamente se precisa retirar mais.”

Nos cânceres de pulmão, por exemplo, a definição das margens é um dos pontos mais críticos da cirurgia. Uma retirada excessiva pode comprometer a capacidade respiratória do paciente; uma retirada insuficiente aumenta o risco de recidiva.

“A tecnologia permite ao cirurgião saber, ainda na operação, se o tecido é normal ou tumoral, sem precisar esperar o laudo”, afirma o imunologista Kenneth Gollob, diretor do Centro de Pesquisa em Imunologia e Oncologia (CRIO) do Einstein.

Cirurgiões utilizam MasSpec Pen para analisar células tumorais em tecidos — Foto: Divulgação/Einstein Hospital Israelita

Mama, fígado e ovário serão analisados

O Einstein é o primeiro centro fora dos Estados Unidos a testar a MasSpec Pen em pacientes. O estudo clínico, com duração de 24 meses, acompanha 60 pessoas com câncer de pulmão e de tireoide –tumores escolhidos pela acessibilidade cirúrgica e pela maturidade dos algoritmos de detecção.

A tecnologia já havia sido validada em um estudo publicado na JAMA Surgery em 2023, com mais de 100 pacientes submetidos a cirurgias de tireoide e paratireoide, alcançando acurácia superior a 92%.

O trabalho demonstrou que a caneta pode diferenciar, em tempo real, tecidos muito semelhantes, evitando a retirada acidental de glândulas saudáveis –uma complicação que ocorre em até 25% das operações convencionais.

As próximas etapas incluem estudos em tumores de mama, fígado e ovário, áreas em que a tecnologia já demonstrou alta precisão em testes laboratoriais e pode auxiliar na definição das margens cirúrgicas.

Os resultados obtidos no Brasil serão comparados ao exame anatomopatológico para avaliar acurácia, sensibilidade e especificidade.

Caneta pode medir potencial de resposta ao tratamento?

Além de detectar a presença de câncer, a equipe do Einstein quer entender se a MasSpec Pen pode revelar o perfil imunológico de cada tumor –uma informação que, até hoje, só é obtida dias depois da cirurgia, com exames laboratoriais complexos.

“Cada câncer tem uma paisagem imunológica própria, uma espécie de ‘impressão digital’ do sistema imune dentro do tumor”, explica Kenneth Gollob. “Alguns são chamados de ‘tumores quentes’, porque estão repletos de células de defesa, como linfócitos e macrófagos. Outros são ‘tumores frios’, que conseguem se esconder do sistema imunológico.”

Essa diferença é crucial para o sucesso dos tratamentos modernos. Os tumores quentes costumam responder melhor à imunoterapia, uma classe de medicamentos que estimula o sistema imunológico a atacar o câncer. Já os frios, mais resistentes, exigem abordagens combinadas –com quimio, radio ou novos imunomoduladores.

A expectativa dos pesquisadores é que a caneta consiga identificar, em tempo real, essa “temperatura imunológica”, analisando os metabólitos e lipídios que refletem a presença de células imunes ativas.

“Se conseguirmos detectar isso no ato da cirurgia, o médico poderá planejar o tratamento logo em seguida –sem esperar semanas pelo resultado da biópsia completa”, diz Gollob.

Segundo ele, o impacto seria duplo: clínico e científico. “Para o paciente, é mais agilidade e tratamento personalizado. Para a pesquisa, é a chance de entender, em milhares de amostras reais, como o sistema imune interage com o tumor em diferentes órgãos.”

A tecnologia por trás do diagnóstico instantâneo

Parceira tecnológica do projeto, a Thermo Fisher Scientific é quem fornece o espectrômetro de massas Orbitrap 240, peça central da análise molecular.

Esse equipamento –que ocupa cerca de um metro de comprimento e pesa dezenas de quilos– é o “cérebro” da operação. É ele que recebe, analisa e interpreta as amostras coletadas pela caneta.

O funcionamento ocorre em duas etapas interligadas:

  1. A MasSpec Pen coleta a amostra. Ao encostar a ponta na região cirúrgica, o dispositivo libera uma microgota de água que absorve moléculas do tecido –como lipídios, metabólitos e fragmentos de proteínas. Essa gota é imediatamente sugada por um fino tubo conectado ao equipamento principal.
  2. O espectrômetro faz a leitura química. Dentro do Orbitrap, essas moléculas são ionizadas e separadas conforme sua massa e carga elétrica, permitindo a criação de um perfil químico único, chamado de assinatura molecular.

A partir daí, um software alimentado por inteligência artificial compara o resultado com uma biblioteca de milhares de padrões de tumores já catalogados.

“A espectrometria de massas é uma das ferramentas mais precisas da ciência moderna. É ela que transforma a leitura química da gota de água em um diagnóstico confiável”, explica Dionísio Ottoboni, diretor de Instrumentos Analíticos da Thermo Fisher para a América Latina.

A pesquisadora brasileira Lívia Eberlin e sua equipe, responsáveis por desenvolver a MasSpec Pen — Foto: Arquivo Pessoal

Brasil na ponta

Natural de Campinas, no interior de São Paulo, Lívia Eberlin é formada em Química pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), fez doutorado na Purdue University e pós-doutorado em Stanford.

Hoje, lidera uma equipe na Baylor College of Medicine e comanda a startup MS Pen Technologies, que desenvolve e pretende comercializar a caneta.

Com a conclusão do estudo, o passo seguinte é submeter a tecnologia à aprovação da agência regulatória americana, a Food and Drug Administration (FDA) e, futuramente, da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

A pesquisadora brasileira Lívia Eberlin — Foto: Arquivo Pessoal
A pesquisadora brasileira Lívia Eberlin — Foto: Arquivo Pessoal

“Meu sonho sempre foi trazer a tecnologia para o Brasil. O estudo com o Einstein mostra que ela é robusta, reprodutível e aplicável a diferentes realidades clínicas”, diz.

Além do ganho científico, a pesquisadora vê no projeto uma dimensão simbólica: “É a prova de que a ciência brasileira tem alcance global e pode transformar a vida das pessoas.”

Jovem presa injustamente por 6 anos morre de câncer dois meses após ser absolvida por júri no RS

Jovem presa injustamente por 6 anos morre de câncer dois meses após ser absolvida por júri no RS – Foto: redes sociais

Uma jovem que ficou presa injustamente por 6 anos morreu dois meses após ser absolvida pelo júri. Damaris Vitória Kremer da Rosa, 26 anos, não resistiu às complicações de um câncer no colo do útero diagnosticado enquanto estava na cadeia. Ela foi sepultada no dia 27 de outubro, no Cemitério Municipal de Araranguá (SC).

Conforme os registros da Secretaria de Sistemas Penal e Socioeducativo, Damaris foi presa preventivamente em agosto de 2019, por suposto envolvimento no homicídio de Daniel Gomes Soveral, ocorrido em novembro de 2018, em Salto do Jacuí, no Noroeste do RS.

A denúncia foi oferecida à Justiça em julho de 2019. Na ocasião, a Promotoria alegou que Damaris “ajustou o assassinato juntamente com os denunciados” e manteve “conduta dissimulada, um relacionamento com a vítima, de modo a fazê-la ir até Salto do Jacuí, local estipulado para a execução”.

Conforme o MP, outras duas pessoas tiveram envolvimento na morte: Henrique Kauê Gollmann (namorado de Damaris na época) e Wellington Pereira Viana. Henrique teria efetuado o disparo que matou Daniel, e Wellington “concorreu para a prática do fato ao ajustar e auxiliar na organização do homicídio”.

Henrique foi recolhido no Presídio Estadual de Venâncio Aires. O júri o condenou pela morte. Welligton chegou a ser levado para o Presídio Estadual de Santa Cruz do Sul. Ele foi absolvido das acusações.

A defesa de Damaris sustenta que ela apenas contou a Henrique que teria sido estuprada por Daniel. Em retaliação, ele teria assassinado o homem e ateado fogo no corpo.

Ao longo do processo, foram protocolados pedidos de revogação da prisão de Damaris, que receberam pareceres negativos do Ministério Público e foram indeferidos pela Justiça. Ela relatava problemas de saúde, como sangramento vaginal e dor na região do ventre.

“Apesar da suposta fragilidade na saúde da ré, tal alegação é pautada em mera suposição de doença, tendo em vista que os documentos médicos juntados nos autos apenas apontam a indicação de ingestão de medicamentos, sem apontar qualquer patologia existente e sem trazer exames e diagnósticos”, argumentou o MP.

“Não há demonstração suficiente de a ré estar extremamente debilitada por motivo de doença grave, na medida em que os documentos médicos são meros receituários médicos, sem apontar qualquer patologia existente e sem trazer exames e diagnósticos”, pontuou a Justiça.

Tornozeleira e júri

Jovem presa injustamente por 6 anos morre de câncer dois meses após ser absolvida por júri no RS – Foto: redes sociais

Damaris passou por penitenciárias em Sobradinho, Lajeado, Santa Maria e Rio Pardo. Apenas em março de 2025, a prisão foi convertida em domiciliar. A decisão se deu em razão do diagnóstico de câncer e do agravamento dos problemas de saúde da mulher.

No mesmo mês, foi determinada a instalação de monitoramento eletrônico, conforme ofício expedido. Em abril, a Justiça autorizou, a pedido da defesa, que Damaris permanecesse na casa da mãe, em Balneário Arroio do Silva (SC), com tornozeleira.

“Fiz petições manifestando que ela estava tratando câncer e precisava transitar por hospitais. Ainda, havia a oscilação do peso. Pedi remoção da tornozeleira, mas nenhum desses pedidos foi atendido. Ela foi submetida a raio-x, exames, tudo com tornozeleira”, relata a advogada Rebeca Canabarro.

O caso de Damaris foi a julgamento apenas em agosto. O Conselho de Sentença absolveu a jovem de todas as acusações a ela imputadas (ter matado a vítima e ateado fogo no veículo com o corpo dentro) por negativa de autoria baseada na falta de provas. Ela morreu 74 dias depois.

O que é prisão preventiva?

A prisão preventiva está prevista no Código de Processo Penal (CCP), quando o suspeito apresenta:

  • risco à ordem pública;
  • risco à ordem econômica;
  • risco ao andamento das investigações;
  • risco de fuga.

Também deve ser aplicada quando a liberdade do investigado gerar uma situação de perigo para a sociedade.

O que diz o Tribunal de Justiça do RS

“O Tribunal de Justiça não se manifesta em questões jurisdicionais.

Com relação ao caso, foram avaliados três pedidos de soltura.

O primeiro em 2023, que foi negado pelo magistrado da Comarca, pelo TJRS e STJ em sede de recurso.

Quanto ao segundo pedido, em novembro de 2024, em que a defesa da ré alegava motivo de saúde, a decisão aponta que os documentos apresentados eram receituários médicos, sem apontar qualquer patologia existente e sem trazer exames e diagnósticos.

Em 18 de março de 2025, a prisão preventiva da ré foi convertida em prisão domiciliar, sendo expedido alvará de soltura. A decisão foi motivada pelo estado de saúde da ré, diagnosticada com neoplasia maligna do colo do útero, necessitando de tratamento oncológico regular.

Ainda em março de 2025, foi autorizada a instalação de monitoramento eletrônico, conforme ofício expedido ao Instituto Penal de Monitoramento Eletrônico.

Em abril de 2025, a ré iniciou tratamento combinado de quimioterapia e radioterapia no Hospital Ana Nery em Santa Cruz do Sul, sendo posteriormente transferida para o Hospital Regional em Rio Pardo.

Em 09/04/2025, foi concedido parcialmente o pedido da defesa, autorizando:

a) a transferência e cumprimento de prisão domiciliar com monitoramento eletrônico por tornozeleira;

b) a permanência na residência da mãe da ré, em Balneário Arroio do Silva-SC; e

c) o deslocamento da ré até o Hospital São José em Criciúma para consultas e tratamento oncológico.

Em agosto de 2025, foi realizado o julgamento da ré pelo tribunal do júri, quando ocorreu sua absolvição pelos jurados.”

O que diz o Ministério Público do RS

“Na primeira oportunidade em que foi informada nos autos a doença da ré, não houve comprovação desta informação. Mas, a partir do momento em que a defesa fez o segundo pedido de liberdade, alegando e comprovando a doença, a ré foi, então, solta.”

Com câncer, menina de 2 anos emociona em vídeo raspando o cabelo: “Não chora, mamãe”

A empreendedora Rafaela Kohl está emocionando a internet após um vídeo de sua filha, Luiza, viralizar neste sábado (25). A pequena, de apenas dois anos, precisou raspar os cabelos após o diagnóstico de sarcoma de epiteliode de tipo proximal, câncer raro em crianças que afeta os tecidos moles. .

No vídeo, Douglas, pai da criança, aparece com a pequena no colo enquanto corta os cabelos. “Meu Deus, amor, tu tá muito linda!”, diz a mãe durante o processo. “Eu vou ficar careca igual ao meu bebê”, responde a menina. “Você vai ficar maravilhosa”, afirma a Rafaela.

“Por que a mãe está chorando?”, pergunta Luiza. “É porque tu tá ficando tão linda, que eu não imaginava que tu ia ser tão linda assim careca”, responde Rafaela. “Não chora, mamãe. Não chora. O meu cabelo vai crescer!”, pede a pequena.

“A missão de cortar seu cabelo não foi nada fácil, nem para mim, nem para ela. Porém, eu tive a ideia de contar uma história a ela, que uma fada precisava de seu cabelo para fazer uma poção mágica e trazer a cura a todos os que precisam, e ela mais do que de pressa aceitou. Ah, minha filha, se você soubesse o quanto você está sendo gigante nessa batalha e o orgulho que eu tenho de você ter vindo de mim e de seu pai! 🩷 Siga sendo forte que nós seguiremos movendo o mundo até termos você curada! […] Câncer um dia será somente um signo!”, escreveu a mãe na legenda da publicação.

O vídeo já alcançou mais de 80 mil curtidas e recebeu centenas de comentários de apoio. Em outra publicação, Rafaela explica que o diagnóstico veio após a filha sentir câimbras nos braços. Os médicos, então, diagnosticaram a pequena com epilepsia, porém, Rafaela buscou uma segunda opinião. Após uma tomografia, o diagnóstico correto do câncer raro.

“Já tivemos o início da quimioterapia já realizamos o 1° ciclo e ele foi um sucesso, seguimos firmes no nosso propósito, cada dia mais perto da cura e com a nossa fé dia após dia fortalecida.”

‘Nunca soltamos a mão uma da outra’: gêmeas descobrem câncer quase ao mesmo tempo e vencem tratamento juntas, em Varginha

‘Nunca soltamos a mão uma da outra’: gêmeas descobrem câncer quase ao mesmo tempo e vencem tratamento juntas, em Varginha – Foto: reprodução

Cristina Aparecida de Souza Setério Olímpio e Cristiane Aparecida de Souza Setério Silva sempre dividiram a vida. Desde crianças, vestiam roupas iguais, cresceram juntas e, já adultas, se casaram com apenas um ano de diferença. No ano passado, as irmãs gêmeas de Varginha (MG) tiveram mais uma coincidência marcante: descobriram, quase ao mesmo tempo, que estavam com câncer de mama.

A assistente administrativo Cristiane foi a primeira a perceber algo diferente.

“Eu descobri quando vi uma moça sem cabelo no meu trabalho. Ela estava em tratamento oncológico. Naquela mesma noite, durante o banho, fiz o autoexame e senti o nódulo no meu seio esquerdo. Procurei um ginecologista, que me encaminhou ao mastologista, e lá foi detectado o câncer”, contou.

Logo depois, a irmã Cristina, operadora de caixa, também resolveu se examinar.

“Pelo diagnóstico da Cristiane, eu também fiz o autoexame e descobri um nódulo no mesmo lado que o dela. Procurei o mastologista e no mesmo dia já fiz a biópsia e os exames. Foi o início de tudo”, relembra.

Importância do diagnóstico precoce

‘Nunca soltamos a mão uma da outra’: gêmeas descobrem câncer quase ao mesmo tempo e vencem tratamento juntas, em Varginha – Foto: reprodução

O autoexame foi decisivo para as irmãs, já que até pouco tempo a mamografia pelo SUS era oferecida apenas a partir dos 50 anos. Com a ampliação, mulheres a partir de 40 anos podem fazer o exame, o que deve facilitar a detecção precoce. Hoje, segundo o Ministério da Saúde, 37% dos casos ainda são diagnosticados em estágio avançado.

“Diagnosticar o tumor em estágio mais precoce favorece a cura e permite tratamentos menos agressivos. Uma mulher com câncer de mama menor do que um centímetro, por exemplo, pode nem precisar de quimioterapia”, explicou Bruno Aquino, coordenador de oncologia do Hospital Bom Pastor, referência para mais de 50 municípios do Sul de Minas.

De acordo com dados da instituição, entre 2020 e 2024, a média anual de novos diagnósticos foi de 290 casos, com maior concentração de registros precoces em mulheres de 30 a 40 anos.

Segundo Aquino, fatores de estilo de vida influenciam cada vez mais nos diagnósticos.

“O câncer é multifatorial. Alimentação industrializada, consumo precoce de álcool e uso de hormônios contribuem para que a doença atinja mulheres mais jovens. De 5% a 10% dos casos são genéticos, mas a maioria está relacionada aos hábitos de vida”, explicou.

Fé, apoio e superação

Para Cristina e Cristiane, o apoio familiar e a fé foram determinantes para superar o momento difícil. As duas já concluíram o tratamento e seguem lado a lado, como sempre fizeram.

“Nós não soltamos a mão uma da outra em nenhum momento. Tudo tem um propósito. Deus permitiu para a gente acordar para muitas coisas da vida. Seguimos firmes, sempre uma apoiando a outra”, disse Cristiane.

“A gente vê o câncer como uma doença terminal, mas não é. Acreditamos que ia dar certo e já deu tudo certo”, completou Cristina.

Via: G1

Rússia diz que vacina contra câncer está ‘pronta para uso’; entenda por que anúncio é polêmico

Rússia diz que vacina contra câncer está ‘pronta para uso’; entenda por que anúncio é polêmico – Foto: reprodução

A chefe da Agência Federal de Medicina e Biologia (FMBA) da Rússia, Veronika Skvortsova, disse, na última semana, que uma vacina em desenvolvimento no país para câncer colorretal está “pronta para uso” após resultados positivos nos testes pré-clínicos. A dose, no entanto, é vista com certo ceticismo na comunidade científica pela ausência da publicação de dados em revistas científicas – todas as informações estão disponíveis apenas em comunicados do governo.

Segundo a agência de notícias estatal russa Tass, Skvortsova afirmou, durante o Fórum Econômico do Leste, na cidade de Vladivostok, que “a pesquisa (da vacina) durou vários anos, sendo os últimos três dedicados aos estudos pré-clínicos obrigatórios”, e que a dose “agora está pronta para uso, estamos aguardando a aprovação oficial”.

”Quando temos um novo medicamento, primeiro fazemos estudos pré-clínicos em laboratórios e/ou animais e, se tiver potencial, iniciamos os estudos clínicos em humanos, que são divididos em fases 1, 2 e 3. Muitas vacinas, por exemplo, têm bons resultados nas etapas iniciais, mas não passam na fase 3, porque têm muitos efeitos colaterais ou não são eficazes. Sempre que temos um novo produto precisamos passar por esse rigor para demonstrar segurança e eficácia. É isso que norteia a maior parte das agências reguladoras do mundo todo — explica Renato Kfouri, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm).

Os dados desses testes são geralmente publicados em revistas científicas, o que garante a confiabilidade das informações. Além disso, são encaminhados para a agência reguladora responsável, como a Anvisa no Brasil, que os avaliará para decidir sobre a aprovação ou não do novo medicamento.

No caso da vacina russa, porém, além de não haver dados publicados, a autoridade do país não especificou se o aval aguardado seria para o início dos testes clínicos em humanos, seguindo o protocolo necessário para uso na população, ou se seria diretamente para a aplicação em pacientes fora de estudos.

— Todos os dados deveriam ser compartilhados em revistas científicas, que são revisados por pares. É o que atesta a qualidade dos estudos e embasa as análises das agências. O que temos dificuldade aqui é com a transparência desses dados. Não sabemos como foram os estudos pré-clínicos, que moléculas são essas, como vão ser os testes clínicos. Países sérios cadastram todos os estudos clínicos na plataforma clinicaltrials, por exemplo — diz Kfouri.

No final do ano passado, porém, Skvortsova já havia dito que, com o fim dos testes pré-clínicos, eles estavam “prontos para começar a implementar esta vacina na prática já em 2025”. O próprio presidente russo, Vladimir Putin, já disse ter altas expectativas para o imunizante, que seria uma “inovação”.

À revista americana Newsweek, David James Pinato, médico oncologista e pesquisador clínico do Imperial College London, no Reino Unido, também afirmou que, baseado no que há disponível, do ponto de vista científico, é impossível compreender de fato em que estágio de desenvolvimento se encontra a vacina:

— Se os estudos em animais foram concluídos, a primeira autorização que poderia acontecer seria utilizar essa vacina no contexto de um ensaio clínico em ambiente de pesquisa, certamente não em uso clínico. Mas não consegui realmente encontrar muita informação sobre há quanto tempo esse tratamento vem sendo testado, onde os resultados foram apresentados, se houve algum tipo de revisão por pares desses resultados, se estamos convencidos de que esse tipo de tecnologia será realmente implementado em humanos.

A dose foi desenvolvida em conjunto por cientistas do Centro Nacional de Pesquisa em Epidemiologia e Microbiologia Gamaleya, do Instituto de Pesquisa Oncológica Hertsen de Moscou e do Centro de Pesquisa do Câncer Blokhin.

De acordo com Skvortsova, nos testes pré-clínicos a vacina foi segura e levou a uma redução no tamanho dos tumores e uma desaceleração na sua progressão, que teria variado de 60% a 80%, dependendo das características da doença. Além disso, a pesquisa teria indicado um aumento nas taxas de sobrevivência.

Inicialmente, o alvo da vacina é o câncer colorretal, também conhecido como câncer de intestino, mas a autoridade disse que há avanços promissores no desenvolvimento de versões para glioblastoma, um câncer cerebral grave, e melanoma, câncer de pele mais letal.

A dose utiliza a tecnologia de RNA mensageiro (RNAm), a mesma empregada nos imunizantes contra a Covid-19 e que vem sendo estudada por outras farmacêuticas para o combate a tumores. Porém, diferente de como foi com a Covid-19, trata-se de uma vacina terapêutica, e não preventiva. Isso porque induz a produção de anticorpos para combater o tumor, e não para evitar o desenvolvimento da doença.

Para isso, retira-se uma proteína (antígeno) do tumor de determinado paciente que, então, é utilizada na formulação de uma dose para apresentá-la ao sistema imunológico. Dessa forma, a vacina faz com que ele reconheça o material genético daquele câncer e produza defesas contra ele — algo que não acontece naturalmente porque as células cancerígenas têm uma capacidade de “se esconder” do sistema imune.

Outros laboratórios que também desenvolvem vacinas terapêuticas para o câncer com a tecnologia de RNAm têm publicado os resultados dos testes em revistas científicas. A mais avançada, na última etapa dos estudos, é uma contra o melanoma, câncer de pele mais agressivo, da americana Moderna em parceria com a MSD.

Dados da fase 2, publicados no The Lancet, mostraram que a vacina proporcionou uma redução de 49% no risco de morte ou recorrência, e de 62% no de morte ou metástase. Além disso, o laboratório americano está nos estágios finais dos estudos clínicos de uma vacina contra o câncer de pulmão de células não pequenas e de câncer de bexiga.

No Brasil, a Fiocruz também tinha um projeto de vacina para tratamento do câncer com RNAm, mas que foi pausado para direcionar o foco para a pandemia da Covid-19. Neste ano, os pesquisadores retomaram o estudo. Em estágio ainda muito inicial, já selecionaram proteínas de um tipo de câncer de mama.

Especialistas ouvidos pelo GLOBO avaliam que as primeiras doses contra o câncer devem receber uma aprovação no mundo até 2030, com base no andamento e na divulgação dos testes clínicos. A vacina russa, no entanto, não tem transparência em relação aos dados dos estudos ou a uma possível análise do órgão regulador do país.

Jornal Folha Regional
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