Jornal Folha Regional

Núcleo em Passos oferece acolhimento gratuito a pessoas impactadas pelo suicídio

Compartilhe:
Núcleo em Passos oferece acolhimento gratuito a pessoas impactadas pelo suicídio – Foto: reprodução

O município de Passos (MG) passa a contar com um serviço inédito voltado ao cuidado de pessoas impactadas pelo suicídio. A cidade é a primeira do interior do estado a implantar um serviço presencial de acolhimento específico para sobreviventes e enlutados, com a criação do Núcleo Passense de Acolhimento de Pessoas Enlutadas pelo Suicídio (NUPAPES).

A iniciativa insere Passos no movimento nacional de fortalecimento da posvenção do suicídio, área da saúde coletiva dedicada ao cuidado de pessoas afetadas por uma morte autoinfligida. Diferentemente das ações de prevenção, a posvenção atua no período posterior ao suicídio, oferecendo suporte emocional, informação qualificada e espaços seguros de escuta.

O NUPAPES nasce a partir de uma inquietação identificada em 2025 por Elmis Santos, nutricionista, pesquisador do suicídio e autor do livro Ventos do Cotidiano – Um Ensaio Sobre a Violência Autolesiva. Integrante do grupo de extensão universitária CEPS (Centro de Educação em Prevenção e Posvenção do Suicídio) da USP de Ribeirão Preto, coordenado pela professora Dra. Kelly Vedana, Elmis percebeu a ausência de serviços estruturados voltados especificamente para sobreviventes e enlutados pelo suicídio no município.

A proposta ganhou força com a parceria da psicóloga Renata Farche, profissional com 26 anos de atuação no campo da saúde emocional e do sofrimento psíquico. Mestre em Ciências da Saúde na Comunidade pela USP de Ribeirão Preto, Renata possui ampla experiência clínica com perdas e lutos, desenvolvendo seu trabalho com base na ética, na escuta qualificada e no respeito às singularidades de cada história.

O projeto foi rapidamente abraçado por diferentes instituições. O NUPAPES conta com o apoio da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG) – Unidade Passos, do Rotary Club de Passos, do Rotary Club Passos Rio Grande e da Associação Regional dos Psicólogos do Sudoeste Mineiro (ARP/SM). A articulação entre universidade, sociedade civil organizada e profissionais da saúde evidencia a importância da construção em rede para ações sustentáveis de cuidado em saúde mental.

O núcleo funciona de forma totalmente gratuita, sem qualquer vínculo político ou religioso, e é desenvolvido de maneira voluntária pelos profissionais envolvidos. O atendimento é exclusivo para pessoas sobreviventes — aquelas que foram direta ou indiretamente impactadas por um suicídio — e para enlutados, garantindo um espaço ético, acolhedor e humanizado.

O início das atividades está marcado para o dia 7 de março de 2026, às 14h, no prédio principal da UEMG/Passos, localizado na Avenida Juca Stockler, nº 1.130. Os encontros acontecerão sempre no primeiro sábado de cada mês, com número limitado de participantes, medida que busca preservar a segurança emocional e a qualidade da escuta.

A participação ocorre mediante inscrição prévia, que pode ser feita pelo WhatsApp (35) 92003-9882 ou pelo Instagram @nucleoposvencaopassos.

O suicídio é reconhecido como um grave problema de saúde pública, cujos impactos ultrapassam a perda individual. Estudos nacionais e internacionais apontam que cada morte por suicídio afeta diretamente cerca de 100 pessoas, entre familiares, amigos e membros da comunidade. O luto por suicídio é considerado um luto de risco, frequentemente marcado por sentimentos intensos de culpa, vergonha, raiva, medo e perguntas sem respostas.

Em uma sociedade ainda atravessada pelo estigma e pelo silêncio em torno do tema, pessoas enlutadas costumam enfrentar isolamento justamente no momento em que mais necessitam de apoio. Nesse contexto, ações de posvenção se mostram fundamentais para reduzir o sofrimento, prevenir novos adoecimentos psíquicos e diminuir o risco de comportamentos autolesivos entre os sobreviventes.

Os grupos de acolhimento ocupam papel central nesse processo. Ao reunir pessoas que compartilham experiências semelhantes, esses espaços favorecem a identificação, a validação da dor e a construção coletiva de estratégias de enfrentamento. Mediados por profissionais qualificados, os encontros permitem a elaboração do luto sem julgamentos, sensacionalismo ou exposição indevida.

Mais do que um espaço de compartilhamento, o NUPAPES se propõe a ser um ambiente de escuta qualificada, informação responsável e fortalecimento de vínculos, reconhecendo o luto por suicídio como uma experiência singular que demanda cuidado específico. Ao se articular com instituições acadêmicas, o projeto também dialoga com a produção de conhecimento e com práticas baseadas em evidências científicas.

Em um país marcado por desigualdades no acesso à saúde mental, iniciativas como o NUPAPES assumem papel estratégico ao demonstrar que o enfrentamento do suicídio exige ações contínuas, compromisso ético e sensibilidade para acolher quem permanece. Ao abrir espaço para a dor e transformar sofrimento em cuidado compartilhado, o núcleo reafirma que falar sobre suicídio de forma responsável também é uma forma de salvar vidas — inclusive aquelas que seguem após a perda.

Compartilhe:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *