
O município de São José da Barra (MG), historicamente dependente da Eletrobras Furnas, vive um momento crítico. Após anunciar a distribuição extraordinária de R$ 4 bilhões em lucros intermediários aos acionistas, a empresa — hoje privatizada — iniciou um processo de desligamento de funcionários efetivos e terceirizados, apesar de já operar com um quadro de pessoal reduzido.
Desde a privatização em 2022, o sistema Eletrobras já registrou milhares de demissões. Na usina de Furnas, foram dezenas de cortes nesse período. Somente na última semana, sete funcionários foram desligados — incluindo dois operadores de usina e cinco secretárias. Internamente, a expectativa é de que o número de setores encerrados aumente.
Dependência econômica e efeito dominó
Conhecidas como “cidades-empresa”, localidades que concentram sua economia em torno de um único empregador sofrem consequências profundas quando esse pilar enfraquece. No caso de São José da Barra, a redução de postos de trabalho na Eletrobras Furnas ameaça não apenas as famílias atingidas, mas também o comércio e os serviços locais.
Padarias, restaurantes e pequenos mercados que dependiam da clientela formada por funcionários da usina já sentem queda no movimento. Com a redução do consumo, a arrecadação municipal diminui, dificultando a implementação de medidas para reverter a crise.
Impactos humanos e sociais
O desemprego traz consequências que vão além do aspecto financeiro. Estudos indicam que, após demissões em massa, as chances de recolocação no mercado formal caem significativamente por até cinco anos. A perda do trabalho também abala a autoestima, eleva índices de estresse e ansiedade e pode provocar problemas mais graves, como depressão e síndrome de Burnout.
Para quem permanece no emprego, o clima de insegurança leva à queda de produtividade, apatia e aumento do risco de acidentes.
Contexto histórico e cobrança social
Moradores e lideranças locais lembram que Furnas mantém uma “dívida social” com a região desde o alagamento de terras e cidades para formação do lago da usina. O atual cenário, segundo eles, revela uma postura de desprezo pela contribuição de anos de serviço de profissionais altamente qualificados.
O risco de um colapso prolongado
Especialistas alertam que a saída para evitar o colapso passa por políticas públicas de incentivo à diversificação econômica e programas de recolocação profissional. Sem isso, cidades pequenas como São José da Barra, cuja economia gira em torno de um único motor produtivo, permanecem vulneráveis a crises como a atual.
Eletrobras Furnas nega demissão em massa na Usina de Furnas
A Eletrobras Furnas negou, nesta quarta-feira, que tenha ocorrido uma demissão em massa na Usina Hidrelétrica de Furnas, em São José da Barra (MG). Segundo a empresa, as saídas registradas fazem parte do Plano de Demissão Voluntária (PDV) e foram realizadas de forma programada.
“Não houve demissão em massa. As pessoas que deixaram a empresa aderiram espontaneamente ao PDV, e os desligamentos foram feitos ao longo do ano, conforme os prazos estabelecidos no programa”, informou Furnas, em nota enviada à imprensa.
A companhia explicou ainda que o período para adesão ao PDV já se encerrou, mas que o calendário de desligamentos segue em andamento.
Em relação aos trabalhadores terceirizados, Furnas confirmou que houve cinco desligamentos na última semana. No entanto, destacou que esse número não caracteriza um corte em larga escala. “Importante deixar claro que não foi uma demissão em massa”, reforçou a empresa.
Dividendos bilionários e resultados financeiros
Enquanto enfrenta críticas pela redução de seu quadro de pessoal, a Eletrobras divulgou que o conselho de administração aprovou o pagamento de R$ 4 bilhões em dividendos intermediários. O pagamento, previsto para 28 de agosto de 2025, será de R$ 2,430363372 por ação preferencial de classe A, R$ 1,933479023 por ação preferencial de classe B e R$ 1,757706425 por ação ordinária. A data de corte para acionistas na B3 será 15 de agosto, e para os detentores de ADRs negociados na NYSE, em 18 de agosto.
No balanço do segundo trimestre de 2025, a companhia reportou lucro líquido ajustado de R$ 1,47 bilhão — alta de 43,3% em relação ao mesmo período de 2024. Sem ajustes, porém, registrou prejuízo líquido de R$ 1,32 bilhão, revertendo o lucro de R$ 1,74 bilhão obtido no 2T24. O Ebitda foi de R$ 1,26 bilhão, queda de 71,6% na comparação anual, enquanto o Ebitda ajustado atingiu R$ 5,15 bilhões, crescimento de 19,2%.






