
O Governo de Minas Gerais afirma ter alcançado uma redução de 80% no número de buracos nas rodovias estaduais ao longo dos últimos seis meses de 2025, após a adoção de um sistema de monitoramento baseado em inteligência artificial. Apesar dos números positivos apresentados pelo Estado, motoristas e turistas que trafegam pelas estradas mineiras seguem relatando más condições de tráfego, com buracos frequentes e risco à segurança.
A tecnologia começou a ser utilizada em maio de 2025, por meio da Secretaria de Estado de Infraestrutura, Mobilidade e Parcerias (Seinfra) e do Departamento de Estradas de Rodagem de Minas Gerais (DER-MG). Segundo o governo, Minas se tornou o primeiro estado do país a aplicar a ferramenta tanto em rodovias estaduais quanto nas concedidas à iniciativa privada.
De acordo com a gestão estadual, o monitoramento, antes feito majoritariamente de forma manual, passou a ser realizado por meio da análise automatizada de imagens captadas por veículos equipados com câmeras de alta resolução. O sistema identifica e classifica defeitos no pavimento, problemas de sinalização, falhas de drenagem e outros elementos da via, gerando dados georreferenciados que orientam o planejamento da manutenção.
Atualmente, cerca de 20 mil quilômetros de rodovias pavimentadas são avaliados mensalmente, funcionando como suporte ao Índice de Condição da Manutenção (ICM). O investimento no sistema é de aproximadamente R$ 5 milhões. A tecnologia foi desenvolvida em parceria com o Laboratório de Transportes e Logística (LabTrans), da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em cooperação com o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit).
Apesar dos indicadores oficiais, a realidade percebida por quem usa as estradas diariamente parece distante dos dados divulgados. Motoristas relatam que buracos continuam sendo um problema constante em diversas regiões do estado.
“Eu viajo toda semana entre o Sul de Minas e a Região Metropolitana de Belo Horizonte e sinceramente não vejo essa redução toda. Tem trecho que parece até pior do que antes”, afirma o caminhoneiro Carlos Henrique de Souza, de 46 anos.
A professora aposentada Maria Lúcia Fernandes, que costuma viajar de carro para visitar familiares no interior, também questiona os números. “Se diminuiu 80%, eu fico imaginando como era antes, porque ainda encontro muito buraco, principalmente em rodovias mais afastadas das cidades grandes”, relata.
Para o DER-MG, os dados refletem uma melhora significativa na gestão da malha viária. Segundo Rodrigo Colares, chefe da Assessoria de Gestão Estratégica do órgão, a queda no número de buracos no segundo semestre de 2025 está diretamente ligada ao uso das novas ferramentas de monitoramento, o que teria aumentado a eficiência dos contratos de manutenção e dos investimentos públicos.
“O DER hoje possui ferramentas de gestão que melhoram a qualidade do gasto público, como o Índice de Condição da Manutenção, que monitora mensalmente, por meio de imagens, problemas como buracos, vegetação e limpeza de drenagem. Além disso, utilizamos dados do Waze, que permitem identificar em tempo real pontos de alagamento, congestionamentos, acidentes e também buracos, a partir dos alertas dos usuários”, explica.
A Codex, empresa responsável pelo sistema de governança e monitoramento dos dados, defende que a tecnologia permite antecipar falhas antes que elas se agravem. Para Lucas Teixeira, Executivo de Negócios da empresa, a transformação de grandes volumes de dados em informação estratégica torna as decisões mais rápidas e eficazes.
“Com esse modelo, conseguimos enxergar os problemas antes que eles se tornem críticos. Isso ajuda o gestor público a planejar melhor as intervenções e alcançar resultados concretos, como a redução da reincidência de falhas no pavimento”, afirma.
Mesmo assim, usuários das rodovias avaliam que os efeitos práticos ainda não são plenamente percebidos. “A tecnologia pode até existir, mas, na ponta, quem dirige sente o impacto dos buracos no carro e no bolso”, comenta o vendedor autônomo João Paulo Ribeiro, que trafega frequentemente por rodovias do Centro-Oeste mineiro.
Com os resultados apresentados, o DER-MG estuda ampliar o uso da inteligência artificial para rodovias não pavimentadas, que somam mais de 6 mil quilômetros em Minas Gerais. Enquanto isso, a divergência entre os números oficiais e a percepção da população segue levantando questionamentos sobre a efetividade das melhorias anunciadas.