
No dia em que a Lei Seca (Lei Federal nº 11.705/2008) completa 18 anos, Minas Gerais aparece no topo do ranking nacional de autuações relacionadas à embriaguez ao volante nas rodovias federais. Os números revelam que, apesar dos avanços na legislação, o estado ainda enfrenta um desafio persistente: mudar a cultura que normaliza o ato de beber e dirigir.
Dados da Polícia Rodoviária Federal (PRF), analisados pela Associação de Clínicas de Trânsito (Actrans) de Minas Gerais, mostram que, entre janeiro e maio deste ano, foram registradas 657 infrações por teste positivo de etilômetro nas rodovias federais mineiras. Além disso, 2.770 motoristas se recusaram a realizar o teste do bafômetro.
Somadas, as duas categorias resultam em 3.427 infrações, o equivalente a 22% de todas as autuações por alcoolemia registradas pela PRF em todo o país. Na prática, os dados indicam que, diariamente, pelo menos 22 motoristas alcoolizados são flagrados circulando pelas estradas de Minas Gerais.
O problema se torna ainda mais grave quando analisados os acidentes causados pela combinação de álcool e direção. Nos cinco primeiros meses de 2026, Minas registrou 127 acidentes provocados diretamente pela ingestão de bebida alcoólica por parte dos condutores. Embora o estado ocupe a terceira posição em número de ocorrências e de feridos, com 114 vítimas, aparece em segundo lugar no ranking nacional de mortes.
Foram nove óbitos no período, o que representa 10,71% das 84 mortes registradas em todo o país em acidentes relacionados à embriaguez ao volante.
O cenário preocupa quem percorre diariamente rodovias como as BRs 040, 381, 135 e 262, além da MGC-135. O caminhoneiro Marco Giovani, de 24 anos, acredita que a Lei Seca tem efeito positivo, especialmente entre os condutores de veículos de grande porte, mas faz críticas aos motoristas de automóveis.
“O pessoal de carro pequeno pula muito as normas, não obedece muito a Lei Seca”.
Ele defende uma fiscalização mais rigorosa para esse grupo e afirma que muitos condutores deixam festas dirigindo sob efeito de álcool, aumentando o risco de acidentes.
“O pessoal corre demais”.
COMPORTAMENTO DE RISCO
A preocupação dos motoristas que respeitam as regras é confirmada por equipes de resgate que atuam nas rodovias. Profissionais da concessionária EPR Via Mineira, responsável pelo trecho da BR-040 entre Belo Horizonte e Juiz de Fora, relatam encontrar frequentemente indícios de consumo de álcool durante atendimentos a acidentes.
Fotografias registradas pelas equipes de inspeção mostram não apenas a força dos impactos, mas também latas e garrafas de cerveja dentro dos veículos envolvidos. Em uma das imagens analisadas pela reportagem, uma bolsa térmica aberta continha uma lata de cerveja, sugerindo que a bebida era mantida gelada para consumo durante a viagem.
“Conseguimos ver que há embalagens de bebidas ali (nos veículos) já utilizadas, por exemplo, uma garrafa de cerveja ainda gelada, e a pessoa (ao volante) com comportamentos diferentes de um motorista que não fez o uso de bebida alcoólica”, explica o gerente de operações da EPR Via Mineira, Anderson Finco.
O gerente chama atenção para o aumento do consumo de álcool durante eventos festivos, especialmente em junho, período marcado pelas festas juninas e pela exibição de jogos da Copa do Mundo.
“Até mesmo em eventos de grande público, como shows, entre outros, o fomento do consumo da bebida é notório. As pessoas acabam, por vezes, fazendo a opção errada”, diz Anderson.
A recomendação é que motoristas utilizem carros por aplicativo ou táxis para se deslocarem até esses eventos.
Embora a confirmação da embriaguez seja atribuição das autoridades policiais, a concessionária tem intensificado ações educativas sobre o tema. Neste mês, em que a Lei Seca completa 18 anos, a EPR Via Mineira promove atividades de conscientização em pontos estratégicos da BR-040. As ações já ocorreram em Belo Horizonte, Nova Lima, Juiz de Fora, Santos Dumont e Barbacena. Nesta sexta-feira, o trabalho será realizado na Unidade Operacional da PRF de Juiz de Fora, no km 769,9 da rodovia.
MINAS TEM UMA DAS MAIORES LETALIDADES DO PAÍS
Segundo dados da PRF, Santa Catarina lidera o número de acidentes causados por embriaguez ao volante, com 234 ocorrências, seguida pelo Paraná, com 180. Minas Gerais aparece em terceiro lugar, com 127 registros.
No entanto, quando o assunto é letalidade, o cenário mineiro é mais preocupante. Apesar de registrar quase o dobro de acidentes que Minas, Santa Catarina contabilizou apenas uma morte no período, resultando em uma taxa de letalidade de 0,4%.
Já em Minas Gerais, o índice alcança 7,1%, acima da média nacional de 5,8%. O dado demonstra que acidentes relacionados ao consumo de álcool tendem a ser mais graves e mais fatais nas rodovias do estado.
A diferença também aparece nas autuações. Minas lidera com 657 casos de teste positivo para alcoolemia. Em relação à recusa ao bafômetro, o estado registrou 2.770 ocorrências, muito acima dos números de Santa Catarina (1.198), Rio Grande do Sul (1.089) e Paraná (1.043).
Para o vice-presidente da Actrans, Carlos Luiz Souza, a liderança mineira está relacionada não apenas ao comportamento dos motoristas, mas também às características das rodovias do estado.
“Temos a maior e mais complexa malha rodoviária federal do país, caracterizada por curvas sinuosas, pista simples e um relevo extremamente acidentado. Adicionar álcool a essa equação geográfica é uma combinação catastrófica. Não há engenharia de tráfego ou tecnologia veicular no mundo que consiga salvar um motorista cujo tempo de reação foi destruído por duas ou três doses de bebida”, adverte.
Rodovias como as BRs 381, 040 e 262 concentram intenso fluxo de veículos de passeio, ônibus interestaduais e caminhões de carga, especialmente do setor de mineração. Muitas dessas vias possuem pista simples, relevo montanhoso e curvas acentuadas, fatores que reduzem a margem para erros.
A presidente da Actrans, Adalgisa Lopes, afirma que, nessas condições, a perda da capacidade reflexiva causada pelo álcool costuma ter consequências devastadoras.
“As rodovias federais de Minas Gerais não perdoam o erro. Enquanto em estados planos e com pistas duplicadas um motorista alcoolizado que sai da pista tem grandes chances de sobrevivência, aqui ele invade a contramão em pista simples e colide de frente com uma carreta de mineração”.
Segundo ela, o álcool reduz significativamente o campo visual, prejudica a percepção de profundidade e retarda o tempo de reação, fatores que podem definir a sobrevivência em rodovias de traçado complexo.
NATURALIZAÇÃO DO RISCO
Especialistas apontam que, apesar dos avanços da Lei Seca e do endurecimento das punições ao longo dos anos, a principal barreira para a redução dos acidentes continua sendo cultural.
“Os dados mostram que a barreira cultural e psicológica do motorista ainda é o maior obstáculo para salvar vidas. Enquanto a sociedade continuar tratando a combinação de álcool e direção como uma infração tolerável ou um deslize social, nossas rodovias continuarão despedaçando famílias”, completa Adalgisa.
A avaliação é compartilhada pelo advogado criminalista e especialista em Direito Penal Frederico Horta. Para ele, a legislação brasileira já alcançou um alto grau de maturidade e eficiência.
“Temos uma lei muito boa. Difícil é aplicá-la, fazer política pública, campanha, mudar a mentalidade, mudar os fatores que levam à ocorrência dos crimes. Problema de repressão nós já não temos mais nesse campo (da legislação). Nossa lei foi bastante alterada nos últimos anos, e essas alterações foram mais que suficientes. É uma lei bastante madura nesse aspecto, talvez uma das melhores leis do mundo. O problema agora é mesmo de cultura, de fiscalização, de política pública de controle e de prevenção”, diz Horta.
O especialista ressalta que fiscalizações frequentes aumentam a percepção de risco entre os motoristas e contribuem para a prevenção das infrações. Segundo ele, o que realmente inibe a prática é a certeza de que haverá fiscalização e punição, e não apenas a severidade da lei.
Nesse contexto, medidas como multas, perda de pontos na Carteira Nacional de Habilitação (CNH), suspensão do direito de dirigir e retenção do veículo continuam sendo instrumentos importantes para desestimular a combinação entre álcool e direção.