
Aos 12 anos, Yasmin Amorim morreu nesta sexta-feira (6), em Cascavel, no oeste do Paraná, após uma longa luta contra um câncer agressivo, o neuroblastoma. A história da menina comoveu o país não apenas pela gravidade da doença, mas também porque R$ 2,5 milhões destinados ao tratamento foram desviados por empresários, atraso que marcou de forma decisiva os últimos anos de sua batalha pela vida.
A morte foi confirmada pela família. Yasmin estava internada no Hospital do Câncer de Cascavel, onde o estado de saúde se agravou durante a madrugada. Nas redes sociais, a mãe, Daniele Aparecida Campos, chegou a informar que uma corrente de oração seria realizada em frente à unidade hospitalar, mas a menina não resistiu antes do horário marcado.
Diagnosticada em 2018, quando tinha apenas cinco anos, Yasmin enfrentou um tumor no pescoço e no tórax. Após o primeiro tratamento com quimioterapia, entrou em remissão. Em 2020, a doença voltou, exigindo um novo ciclo de quimioterapia associado a um transplante de medula óssea, que novamente levou à remissão e permitiu que a criança retomasse uma rotina próxima do normal.
Mesmo após cirurgias, sessões de fisioterapia e procedimentos complexos, o câncer retornou de forma agressiva. Diante do avanço da doença, em 2024, a família recorreu à Justiça para garantir o custeio de um tratamento com medicamentos importados, avaliados em R$ 2,5 milhões. A Justiça determinou que o Governo do Paraná arcasse com a compra do medicamento Danyelza.
Após a apresentação de três orçamentos, a empresa Blowout Distribuidora, Importação e Exportação Eireli foi escolhida para fornecer os remédios. No entanto, a empresa subcontratou outra importadora, que não entregou a medicação conforme o contratado. O hospital recebeu apenas uma ampola do Danyelza, quando o tratamento exigia seis. Outro medicamento essencial, o Leukine, também chegou de forma incompleta: das 60 caixas previstas, apenas 10 foram entregues, além de versões genéricas.
As irregularidades levaram a Polícia Civil a pedir o bloqueio das contas das empresas envolvidas. As investigações apontaram que os valores estavam praticamente esgotados e que os responsáveis já tinham antecedentes por estelionato.
Enquanto a Justiça tentava recuperar o dinheiro desviado, o Governo do Paraná autorizou uma nova compra emergencial da medicação. Yasmin conseguiu concluir a primeira fase do tratamento no fim de 2024, mas sem resposta significativa. Em 2025, iniciou a segunda fase do protocolo, que não conseguiu finalizar, permitindo o avanço da doença.
Os empresários Lisandro Henrique Hermes e Polion Gomes Reinaux, responsáveis pela compra da medicação, foram condenados por estelionato. As penas somam quatro anos, nove meses e cinco dias de prisão, em regime inicialmente fechado. Eles estão presos desde agosto do ano passado. Um terceiro denunciado foi absolvido.
Na sentença, a juíza destacou que os réus utilizaram a reputação de suas empresas para conquistar a confiança das vítimas e se aproveitaram da estrutura pública para obter vantagem indevida. A magistrada ressaltou que as consequências do crime foram graves, já que o atraso no tratamento fez com que Yasmin precisasse receber morfina a cada hora para suportar as dores enquanto aguardava os medicamentos.
O assistente de acusação, Allan Lincoln, afirmou que a condenação é relevante, mas pode ser ampliada. “Apesar de a sentença ser importante ao condenar os réus por estelionato, entendemos que ela ainda pode ser reformada para incluir crimes mais graves, diante da dimensão do caso”, disse.
A defesa de Lisandro Henrique Hermes informou que vai recorrer da decisão e nega a participação dele em qualquer ação criminosa. A defesa de Polion Gomes Reinaux não se manifestou até a última atualização.
Em meio à dor, a mãe de Yasmin resume o sentimento deixado por uma espera que nunca deveria ter acontecido.
“Sinto alívio, mas também revolta. A gente revive toda a angústia daquela espera”, desabafou Daniele.
A história de Yasmin Amorim escancara não apenas a luta de uma criança contra o câncer, mas também as consequências humanas de crimes cometidos em meio a tratamentos que não admitem atraso.